Quarta-feira, Janeiro 14, 2009
Território das Cariátides
O nosso rosto não envelhecerá, porém não sorriremos e nem lágrimas derramaremos. A chuva que escorre pela pedra branca pode imitar as lágrimas. Assim choraremos somente quando a Terra chorar em tempestade e o teto acima dela se decompuser em água, em fragmentos d’água. Somos escravas que à época da construção deste templo fomos sacrificadas a sustentar a pedra. E com pouco tempo nos cansamos e quando quisemos cair mortas, nosso corpo permaneceu reificado em branca e fria pele. O estrangeiro que nos visita não pode ver nossas bocas abertas e sedentas, não pode ver nem ouvir nosso discurso, ou sentir o pulsar de nosso sangue. Porque de fato estamos mortas. Porém vivas, porque servimos ao propósito desta Terra e de homens, como tu, estrangeiro. O desconhecemos, mas sabemos que enquanto este teto estiver no alto, haverá vida e os homens estarão salvos de si próprios. Quando os homens nos derrubarem por sua ira ou indiferença, estarão fadados a viver sem escolha e sem o nada.
E assim, não era uma mulher de areia, mas de lua e da luz refletida nela. A lua só se revela quando faz refletir essa luz masculina do sol. Mas qual o problema de ela se ocultar?
Sábado, Outubro 13, 2007
África

Levantou-se, e continuava cansada, tanto ou mais que quando se deitara. Uma noite mais, e quente. A cama que mal comportava sua forma corpulenta. O bodum da negra habitava todo o quarto quente, impregnava as roupas no cabide e o carpete. Cabelo eriçado pelo revolver da noite em seu travesseiro úmido. Entrou no chuveiro morno, e a água a cobriu dividida particularmente. Entre seus seios, seu peito colorido. Saída da água o calor quase a secou num instante. Passou perfume comprado na revista. Cheiro fresco e estranho, contraste agudo com o resto do tempo. E debaixo do imenso e negro corpo algo particular e sensível.
No que pensava, o que sonhara enquanto dormia? Com sua sobrinha que não via a mais de ano, pequenininha nos braços da irmã. Mas sonhava com ela já grande, brincando com ela, como se sua filha fosse. Ou será que não era? Não. Filha não tinha. Não tinha nem o homem. Receptáculo que se sentia, fulgurava, mas não se abria. Tinha medo e acanhamento. Descabido pensar em sensação para além daquela. Tinha seu decoro. Sem mato para correr, para engolir, queimava.
Já estava atrasada. Já tinha uma cliente esperando no salão. Gostava dela, menina pequena e faladora. Sempre pintava de vermelho, e saía para badalar.
E conforme o ritmo e o badalar de seu corpo fugiam, os pensamentos emudeciam e esperavam a chance de serem palavras de novo.
Sobre uma Bala.

Durante todo o dia convivera ela com uma dor profunda, que queimava meu ventre. Dor que lembrava uma ligação primitiva do ventre ao peito, mas que eu não sabia se saída do útero ou do coração. Seus pensamentos e intenções pareciam não caber no intelecto. Talvez em seu amor, mas não nessa inteligência que de nada serve para controlar a dor. Dor paradoxalmente deliciosa, eufórica, que a fazia querer nunca mais dormir, e conversar com as pessoas despertas, ou com os apreciadores de café na madrugada.
A bala, no entanto, permanecia latente nessa dor. A bala e a candura inabalável. Ao comentar o seu medo da morte, a cronista de primeira viagem disse que se houvesse encarnação, a vida que vivia não lhe pertenceria. Disse também que na próxima encarnação leria seus livros como uma leitora comum e interessada. E conforme ela lia as palavras encarnadas, teve um espanto. Seu corpo pesou no banco do metrô. A dor havia desaparecido, como se ela tivesse morrido. Como se a bala atingisse o cerne da dor pré-histórica. A escritora disse que queria um aviso a respeito do que encontraria depois da morte. Pois bem, acabara de ter esse aviso. Sua alma já sabia, mas a pessoa nova não. A consciência formal nunca tinha entendido. Mas a bala, agora, atingira seu alvo místico.
Discurso de formatura... Pelo menos para os meus pares...
O que gostaria de provocar é esse questionamento, um questionamento que muitos identifiquem como sendo próprio. Por uma única vez ao menos, gostaria que pensassem nessa dúvida não pela voz de seus pais, de seus professores, de seus chefes, de seus amores, de seus fantasmas noturnos. Calem essas vozes e ouçam o que almejamos, o que amamos verdadeiramente. O mundo, depois disso, pode se tornar mais claro, mais promissor. E nós nos tornaremos mais fortes. Talvez o direito faça mais sentido enquanto instrumento que escolhemos adotar, ao menos a princípio, quando não integralmente. Como aprendizado de pensamento e atuação.
Segunda-feira, Outubro 08, 2007
Palíndromos
Somava Rita: "Só na Rua Aura nos atirávamos!"
Era Maria a ir à maré...
Segunda-feira, Julho 30, 2007

Arrebentação de vida. A chegada da noite, a hora em que todos dormem impõe o silêncio e a imobilidade, porque mover-se implica o estalar do assoalho frio, da madeira levantada. Os goles d’água que descem lentos e o crepitar dos sussurros vãos.
A cabeça, porém, arrebenta e fulgura. A cada instante as idéias ocorrem e no seguinte morrem. O papel está distante e a noite imaculada. A sensação da descoberta de palavras, sua sublime sonoridade e harmonia se perdem; e assim os corpos queridos respiram em uma cama de mortalidade.
Acontece então. Levanta-se. Profana a quietude do quarto. A treva se deforma, movendo-se a cada passo arrastado. Alcança o caderno dentro da bolsa, procura a caneta sobre a mesa. O movimento vai ganhando forma, cor e som em progressão contínua. Coloca os óculos e acende a luz tão fraca e agora tão forte. O mundo não acaba, só torna-se mais sólido.
A inconsciência, a criação onírica são estados belos e atemporais, todavia mortais como os homens. As palavras tão mais reais e sólidas podem se perpetuar, abandonando a trama mortal.
A mente não mais foge rapidamente. Aviva-se nas palavras escritas. E onde estão tantas idéias perdidas para que a noite não se penetrasse e rompesse? Estão junto às ondas que ameaçaram e não arrebentaram. Não atravessaram a vaga linha do impulso da arrebentação.
Domingo, Maio 13, 2007
Canção de Amor - Floresta do Amazonas
Tão longe assim de ti
Tão bom é saber calar
Sinto o ardor dos beijos teus em mim. Ah!
Tão doce aquela hora
Tão longe assim de ti
Quarta-feira, Abril 04, 2007

Sexta-feira, Março 16, 2007
Final de ovo...
